Biografias magistrais já foram escritas sobre esse pernambucano do século passado que, no entanto, continua desconhecido em sua própria terra, apesar de a atualidade latente de suas ideias as tornarem, a meu ver, atemporais.
O primeiro grande ensinamento desse médico, geógrafo, acadêmico, presidente da FAO, portanto, para nós hoje, pode ser melhor resumido por uma lei básica das reações químicas: quanto maior a superfície de contato, mais rápida a ação entre os reagentes. Em outras palavras, quanto mais as ideias assim trabalhadas, ao longo de uma vida, forem divulgadas entre a população de interesse, mais amplo o questionamento, o aprendizado e, possivelmente a solução para o problema apontado – no caso, para Castro, a fome como um fenômeno social, não-natural.

(Imagem: Recife Resiste)
Na época, entretanto, a ampla divulgação dos estudos contidos em Geografia da Fome (1946) acelerou um processo efetivamente reacionário: com o Golpe de 1964, Josué de Castro foi dos primeiros a ser declarado inimigo interno, ter seus direitos cassados e ir-se exilado à Europa. Com isso, vem o segundo grande ensinamento dos anais da Química: grandes descobertas trazem grandes riscos, tal como descobriu a extraordinária Marie Curie, de quem falaremos mais tarde neste blog.
Pois Josué de Castro propunha uma solução para o problema da fome dentro do capitalismo, e a maior prova disto foi seu mandato na presidência da FAO, órgão das Nações Unidas para a Agricultura e, já naquela época, centro do capitalismo mundial, ter vindo após ampla difusão de suas ideias na supracitada obra, da qual extraí apenas o seguinte excerto:
O tipo de reforma que julgamos imperativo da hora presente não é um simples expediente de desapropriação e redistribuição da terra para atender às aspirações dos sem-terra. Processo simplista que não traz solução real aos problemas da economia agrária. Concebemos a reforma agrária como um processo de recisão das relações jurídicas e econômicas, entre os que detêm a propriedade agrícola e os que trabalham nas atividades rurais. (CASTRO, 1946, p. 286)
Agora imaginem a continuação desse raciocínio brilhante, e imaginem o que a discussão do tema proposto – ainda um tabu mesmo entre os estudantes das mais renomadas universidades brasileiras – poderia trazer de enriquecedor ao pensamento e ao cenário político brasileiros! No entanto, a fome ainda é um tabu, e a reforma agrária, que passou para a CF 1988 do modo simplista que Castro abominava, tabu maior ainda.
Espero que a breve divulgação das ideias e das vidas extraordinárias como a desse pernambucano arretado nos ajudam, um dia, a mudar esse cenári de silêncio velado, vergonhoso, que paira sobre os filhos da Revolução – Geração Copia e Cola.
Biografia: http://www.juraemprosaeverso.com.br/Biografias/JosuedeCastro.htm